Cremação
O
Espiritismo
não proíbe a cremação de cadáveres, mesmo porque nada é proibitivo
no Espiritismo, pois é uma Doutrina de liberdade mas, antes de tudo, uma
Doutrina da conscientização. Recomenda, todavia, muita cautela para
aqueles que venham adotar o procedimento da cremação de cadáveres, em
substituição a inumação (sepultamento), pelos motivos que vamos expor.
Perispírito
o que é e como fica.
Nosso corpo
material, que é energia densificada, se liga ao Espírito, Ser Inteligente
de essência sublimada, através do perispírito elemento mediador entre os
dois corpos de naturezas extremamente diferentes. O perispírito é um
envoltório semimaterial do Espírito, constituído de substância etérea e
sutil, mais fluídica do que material, sendo que esta parte material é muito
menos denso do que a matéria do corpo de carne.
Para dar vida
ao corpo carnal, o perispírito se liga a ele, célula a célula, elemento a
elemento, como se existissem feixes de fios fluídicos, estabelecendo a
conexão celular material com o Espírito. É assim que tudo o que se passa no
corpo material, o Espírito toma conhecimento através da ligação existente e, no
sentido inverso, todas as decisões, ordens, desejos, vontades e até mesmo todos
os sentimentos do Espírito chegam à estrutura celular ou nela se
refletem, através do mesmo canal fluídico.
Quando,
por exemplo, cortamos acidentalmente um dedo, as células danificadas,
desestruturadas, comunicam ao Espírito o traumatismo ocorrido e o
Espírito sente, como conseqüência, a dor, pois não é a matéria que sente
dor e sim o Espírito. Inversamente, quando o Espírito delibera, por exemplo,
erguer o braço direito do corpo material, este obedece à ordem e se levanta,
porque as instruções emitidas pelo Espírito (esta é a sua vontade), são
repassadas às células nervosas do cérebro material que simplesmente obedecem,
transmitindo o desejo do Espírito de levantar o braço direito, neste caso. O
cérebro funciona aqui como mero receptor da ordem do Espírito e aciona a
rede nervosa que atinge o órgão envolvido que é o braço direito. Igualmente,
pelo mesmo conduto fluídico o Espírito extravasa, também, para o corpo
carnal, todos os seus sentimentos, bons ou maus: sentimentos de alegria ou
tristeza, serenidade ou angústia, amor ou ódio e muitos outros, que irão
revitalizar as células materiais ou produzir nelas distúrbios que podem se
complicar, causando mal-estar e até doenças.
A
Morte
O fenômeno da
morte nada mais é do que o desligamento de todos os fios fluídicos do
perispírito, liberando o Espírito do cárcere material. Uma vez ocorrido
tal desligamento no processo da morte, o Espírito não pode voltar a animar
aquele que foi o seu veículo de carne.
A
Força do Pensamento
e com a
morte, como vimos, o Espírito está totalmente desconectando do corpo
material, poderíamos concluir, de imediato, que tudo o que fosse feito
com o cadáver, não deveria atingir o Espírito, por falta de ligações
reais. Assim, poderíamos cremar o cadáver. Mas as coisas podem não ser
bem assim, porque o Espírito, mesmo liberto da matéria, continua a pensar
e a ter desejos e sentimentos.
Podemos
dizer,
neste caso, que o nosso corpo carnal seria o nosso tesouro e o coração, o nosso
pensamento, o nosso sentimento. Para as criaturas ainda não totalmente
espiritualizadas, que viveram na Terra muito apegadas aos bens materiais,
inclusive ao próprio corpo carnal, a morte não impede que o pensamento do
Espírito esteja concentrado no seu cadáver, até mesmo por uma espécie de
saudade, devido o recente acontecimento do decesso e por se reconhecer, daquele
momento em diante, impedido de usufruir um instrumento carnal para fazer as
coisas que estavam acostumadas a fazer. Se isto acontecer, e acontece com
freqüência, o Espírito fica como que algemado à carne que vestiu na
Terra, presenciando, de forma angustiante, as labaredas a queimar as suas
vísceras, durante a cremação, porque, como sabiamente disse Jesus, o seu tesouro
está ali, no corpo carnal, sendo destruído pelo fogo, em poucos minutos,
bruscamente.
Como
sabemos, Espíritos muito adiantados, altamente espiritualizados, existem
reencarnados na Terra, mas são raros. Aqui se encontram executando missões
específicas, para ajudar a Humanidade a acelerar o seu progresso
evolutivo, em diferentes áreas do conhecimento. Com a morte, os corpos materiais
desses Espíritos, podem ser cremados, porque em nada afetará a sua
sensibilidade, visto que vivem mais ligados à Espiritualidade do que à própria
matéria. Não é o que se passa com a esmagadora maioria, da qual fazemos parte,
pois somos Espíritos em processo evolutivo, mas muito fragilizados pelo
acúmulo de imperfeições e, nestas condições, o campo material ainda nos
impressiona fortemente, sensibilizando-nos de forma muito acentuada, mesmo para
os que são espíritas ou se dizem espíritas. Há sempre alguma circunstância maior
ou menor, que nos prende à matéria. Nestes casos, as labaredas da
cremação podem chamuscar os Espíritos que se ressentirão do evento, para ele
dramático.
Algo
semelhante acontece quando nas sessões mediúnicas recebemos um Espírito
sofredor como, por exemplo, um Espírito que desencarnou através do assassinato,
com um tiro no coração. Ele se aproxima do médium sentindo ainda as dores
no coração provocadas pelo tiro que o vitimou e repassa para o médium, de forma
amenizada, aquelas dores. Como ele já desencarnou, não mais possui coração e,
portanto, não deveria estar sentindo dor alguma. Mas o quadro da sua
desencarnação foi muito traumatizante, fazendo com que o Espírito
conserve, por muito tempo, o seu pensamento fixo, concentrado, naquele
acontecimento, e é por isso que ele sofre.
Nos casos em
que o cadáver não é cremado e sim sepultado, o Espírito, por estar muito
apegado à matéria, pode ficar no cemitério, próximo à sua sepultura,
assistindo também, desesperado, a decomposição gradativa do seu corpo,
sentindo mesmo os vermes corroerem a sua carne e com isso sofrendo muito. Há,
porém, uma diferença capital entre a cremação e a inumação. Na cremação tudo se
processa rapidamente, em poucos minutos e no sepultamento a decomposição
do cadáver é lenta, oferecendo oportunidade para que o Espírito possa ser
devidamente socorrido, orientado e esclarecido, no sentido de desviar,
aos poucos, o seu pensamento para outras coisas importantes.
O Irmão X
nos adverte de que a atitude crematória é um tanto precipitado, podendo vir a
ter conseqüências desagradáveis para o Espírito desencarnante: ... morrer
não é libertar-se facilmente. Para quem varou a existência na Terra entre
abstinências e sacrifícios, a arte de dizer adeus é alguma coisa da felicidade
ansiosamente saboreada pelo Espírito, mas para o comum dos mortais, afeitos aos
comes e bebes de cada dia, para os senhores da posse física, para os
campeões do conforto material e para os exemplares felizes do prazer humano, na
mocidade ou na madureza, a cadaverização não é serviço de algumas horas.
Demanda tempo, esforço, auxílio e boa vontade. Eis porque, se pudéssemos,
pediríamos tempo para os mortos. Se a lei divina fornece um prazo de nove meses
para que a alma possa nascer ou renascer no mundo com a dignidade necessária, e
se a legislação humana já favorece os empregados com o benefício do aviso
prévio, por que razão o morto deve ser reduzido a cinza com a carne ainda
quente?
Leon Denis
na obra O Problema do Ser, do Destino e da Dor, comenta que, ao consultar os
Espíritos sobre a cremação de corpos, concluiu que em tese geral, a cremação
provoca desprendimento mais rápido, mas brusco e violento, doloroso mesmo
para a alma apegada à Terra por seus hábitos, gostos e paixões. É necessário
certo arrebatamento psíquico, certo desapego antecipado dos laços materiais,
para sofrer sem dilaceração a operação crematória. É o que se dá com a maior
parte dos orientais, entre os quais está em uso a cremação. Em nossos países do
Ocidente, em que o homem psíquico está pouco desenvolvido, pouco preparado para
a morte, à inumação deve ser preferida, posto que por vezes dê origem a erros
deploráveis, por exemplo, o enterramento de pessoas em estado de letargia. Deve
ser preferida, porque permite aos indivíduos apegados à matéria que o Espírito
lhes saia lenta e gradualmente do corpo; mas, precisa ser rodeada de grandes
precauções. As inumações são, entre nós, feitas com muita precipitação.
Emmanuel,
em O Consolador, questão 151, opina: Na cremação, faz-se mister exercer a
piedade com os cadáveres, procrastinando por mais horas o ato de destruição das
vísceras materiais, pois, de certo modo, existem sempre muitos ecos de
sensibilidade entre o Espírito desencarnado e o corpo onde se extinguiu o
tônus vital, nas primeiras horas seqüentes ao desenlace, em vista dos
fluidos orgânicos que ainda solicitam a alma para as sensações da existência
material.
Freddy Brandi